Repente (Paraíba)

De Diaspedia
Mapa do Brasil com Paraíba em destaque

Composição da população não-branca do estado[editar | editar código-fonte]

População Total: 3.974.687 pessoas

População Parda: 55,55 % da população

População Preta: 7,96 % da população

População Quilombola: 16.765 pessoas

População Indígena: 30.140 pessoas

Batalha de repente em uma via pública

Fonte: IBGE 2022

Repente[editar | editar código-fonte]

O repente é um diálogo, ou batalha, poético em que dois repentistas se alternam cantando estrofes improvisadas. Falar sobre repente também é falar de cordel: ele é a poesia popular impressa. Nesse sentido, o repente e o cordel compartilham a argumentação melódica que tem o importante papel de facilitar a partilha de pensamentos e ideias, além de criar narrativas, opiniões sobre fatos cotidianos. A particularidade do repente é o improviso e o acompanhamento de instrumentos, como o violão e, algumas vezes, o pandeiro.

Durante o século XIX, devido às altas taxas de analfabetismo e pobreza (causadas por séculos de colonização e exploração), os repentes e cordéis também tinham papel jornalístico e narravam os acontecimentos locais e globais. Mais do que isso, havia liberdade de informar, mas também criticar, concordar e questionar as notícias. Ambos são a arte de contar história em toda a região do Nordeste.

Mas aqui vamos focar em Inácio da Catingueira e sua peleja com Romano da Mãe D´Água, que ocorre na cidade de Patos, Paraíba, em 1874. O primeiro nasce e morre escravizado (ele falece quase uma década antes da abolição da escravidão). O segundo, sendo o oposto do primeiro, nasce é de família de fazendeiros e senhores de escravos. Segundo os cordéis da época, a peleja ocorre durante 8 dias.

O pano de fundo da peleja fora a escravidão. Nesse sentido, ela fora utilizada tanto para demonstração de poder de Romano quanto para crítica social de Inácio. Vejamos alguns trechos a seguir:

Prá gente da sua côr

Sou pior que canguçu

Rasgo, estraçalho e devoro

Mato negro e como cru

Romano demonstra poder se comparando à canguçu, onça feroz típica do sertão. Além disso ele ameaça não apenas Inácio mas toda a “gente da sua côr”. E as ameaças continuam:

Inácio se tú pretendes

Contra a mim me fazer guerra

Veras eu tirar-te a vida

E jugar no seu cadáver

Apesar disso, na peleja o que importa, mais do que tudo, é a rapidez de pensamento e transformação de pensamentos em poesia. Ali, Romano era só mais um (e convenhamos, não era dos melhores). Inácio responde:

           Eu bem sei q’ seu Romano

           Sabe lê, sabe contá

           E não é como Inácio

           Que não sabe soletra

           Mas nasci com dote e sina

           Pra muito improvisar

           Primeiro que Inácio demonstra entender das desigualdades entre ambos. Escravizados no Brasil não podiam ir à escola e ter acesso à educação formal. Todavia, ele sabe de seu potencial e confia em seu talento. Sobre as ameaças, ele afirma:

           Meu branco, se o senhor diz

           Que ainda tem de me açoitar

           Deixa de tentação

           Creia em deus, cuide em rezar

           Eu lhe juro adiantado

           Um homem só não me dá

           Na peleja, sabendo inclusive dos perigos que alguém como Romano poderia oferecer, Inácio demonstra que não possui medo e que, inclusive, pode revidar qualquer violência. Além disso, Inácio usa a ironia e tom cômico ao demonstrar que acredita na superioridade de Romano, até o chamando de “mestre”:

Até com touro e leão

Seu Romano já brigou

Porém hoje aqui em Patos

Eu ei de mostra quem sou

Quero dá no velho mestre

Que diz que nunca apanhou

Só que, no final, ele subverte sua condição ao afirmar que vai bater em Romano, simbolicamente, com o seu talento.

Essa peleja é importante para mostrar as relações de um determinado contexto, o período da escravidão, através da arte. Desde o período da escravização, as artes e cultura são utilizadas por pessoas negras e africanas como forma de batalha pela vida: humanização, felicidade, agilidade, esperteza e astúcia e tudo que não era associada a esses grupos é trazido em suas poesias, melodias e brincadeiras. Em 2021, o repente é registrado como Patrimônio Cultural do Brasil.

VOCÊ SABIA: O rapper Emicida tem a música Inácio da Catingueira em homenagem ao repentista e peleja citados acima. Nesta entrevista, ele fala sobre suas inspirações para fazer a música: https://www.youtube.com/watch?v=-ljZcpFLCRM&t=3s

Fontes[editar | editar código-fonte]

Poetas do Repente - E01 - Tecendo o repente (Fundação Joaquim Nabuco): https://www.youtube.com/watch?v=VO2REyqCRK4