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Comunidade Quilombola Tia Eva (Mato Grosso do Sul)
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== Comunidade Quilombola Tia Eva == A criação da comunidade quilombola Tia Eva está diretamente conectada com a fundação da capital do estado de Mato Grosso do Sul, Campo Grande. A trajetória de Eva Maria de Jesus nos mostra a luta individual e coletiva de descendentes de africanos por terra e dignidade principalmente através da fé. Sua história é recontada por seus descendentes pelo fio de uma memória compartilhada. Assim, tanto a trajetória de Tia Eva quanto o nome da comunidade quilombola que leva seu nome, evidencia uma forma de estar e ser no mundo que mescla cuidado, sonhos e fé em um mundo melhor. Eva nasceu em 1848 na Fazenda Ariranha, localizada na cidade Jataí em Goiás. Na época, a cidade era um polo de comércio de escravizados no Sudoeste de Goiás. Escravizada, ela desempenhava papéis domésticos, principalmente na cozinha. Nos anos de 1870, ela dá luz às suas filhas e é nesse mesmo período que, durante a feitura de doces, um tacho de banha fervente cai em sua perna, criando uma queimadura que nunca cicatrizava. A perna passa a ter um cheiro ruim, o que fez com que ela fosse transferida para outro cômodo para fazer sabão. O dono da Fazenda era conhecido por ser cruel com os escravizados. São inúmeros relatos que ela contara para seus descendentes: havia dias específicos para torturas onde se utilizavam os mais diferentes de materiais e ferramentas. Em um caso específico, o dono pede para uma escravizada jogar sua criança no rio para matá-la, pois ele se incomodava com o choro da criança que estava doente. Esses casos só aumentaram o desejo de Eva de sair daquele lugar e procurar um onde ela e os outros pudessem viver de forma livre e digna. Para isso, ela fez uma promessa para São Benedito: em um dia de tortura coletiva, ela pede que, se ele a ajudasse sair dali ela iria achar um lugar onde as pessoas de sua cor seriam livres e independentes. Nesse mesmo período, ela passa a ser reconhecida na fazenda e seus arredores como benzedeira e chamada de Tia Eva. Várias pessoas procuravam seus serviços, escravizados, pessoas negras livres e pessoas brancas. Após o fim legal da escravização, em 1888, Eva não possuía condições de sustentar suas filhas e, por isso, continua a trabalhar na fazenda. Com seu trabalho de benzedeira e recebendo bem pouco na fazenda, ela passa a construir um pecúlio (carro de bois, porcos e galinhas). Um dia, ela consegue curar a filha de um homem importante que, como forma de agradecimento, lhe dá algumas cabeças de boi. Em 1904, ela consegue iniciar os preparativos para sair do lugar que lhe fez presenciar tanta dor. Por coincidência ou não, um grupo de ex-escravizados de Uberaba chega à Jataí rumo a Mato Grosso. Eles se consideravam uma Irmandade, ou seja, um grupo que se considerava irmãos por solidariedade e objetivos de liberdade. Em Jataí, outros se juntam à viagem, incluindo Eva e seus familiares. A viagem até a capital demora alguns meses e, quando chegam nas fronteiras do estado, eles precisam ser cadastrados. Assim, eles escolhem sobrenomes que antes não possuíam: Borges, Martins, Custódio, Caetano, Souza e Pinto foram alguns dos escolhidos e presentes até hoje na região. A família de Eva escolhera o sobrenome Jesus. A utilização de sobrenomes comuns reforçara a solidariedade dos grupos de pessoas negras. No ano seguinte, a Irmandade chega na hoje capital de Mato Grosso do Sul, Campo Grande. As terras nas quais se instalaram na mata próxima ao córrego Segredo, desvalorizadas por serem consideradas inaptas para o cultivo de gado. Sua fé em São Benedito, novamente, se mescla com a história da comunidade quilombola quando ela lhe faz uma promessa que construiria uma igreja para ele se ela se ferida na perna fosse curada. Assim que se instalaram, sua perna melhorou e, como prometido, ela construíra uma igreja para São Benedito de pau a pique, sendo a segunda igreja do município. Na comunidade eram produzidos doces, azeites, objetos de madeira. Muitas mulheres trabalhavam prestando serviços domésticos e de cuidado, enquanto os homens na construção civil. Em 1910, Tia Eva fez o requerimento de oito hectares ao governo do município pago por 85 mil réis. Em 1918, Campo Grande se torna cidade e a Igreja de São Benedito ganha uma instalação de alvenaria no ano seguinte. No mesmo ano, fora realizada a festa de São Benedito, tradição mantida até hoje pela comunidade. No dia 11 de novembro de 1926, Eva Maria de Jesus falece no quilombo que criara, em frente à igreja que construíra e símbolo de sua fé e coragem. Atualmente, a comunidade quilombola Tia Eva é composta por 428 pessoas separadas em 136 famílias. Em 2008, a comunidade é reconhecida como remanescente quilombola, todavia até hoje a titulação não fora realizada.
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