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Autor: Cauê Gomes Flor Paul Gilroy, nascido em Londres em 1956, é um sociólogo influente no campo dos estudos pós-coloniais e um dos principais pensadores sobre a diáspora africana. Inspirado por Stuart Hall e pelo Centre for Contemporary Cultural Studies, Gilroy introduziu o conceito de “Atlântico Negro” em 1993, redefinindo a diáspora como uma ferramenta analítica para compreender a identidade cultural negra de forma transnacional. Esse conceito permite abordar a cultura negra em diálogo constante, mais fluida e compartilhada entre comunidades dispersas no mundo. Sua visão da diáspora africana começou com experiências pessoais no final dos anos 1970 e foi consolidada pelo contato com o movimento Rastafári e pela leitura de autores como George Shepperson e Roger Bastide. Em ''There Ain't No Black in the Union Jack'' (1987), Gilroy utiliza o conceito de “diáspora” de maneira mais formal para questionar as rígidas divisões raciais e nacionais, considerando o impacto das culturas negras na Grã-Bretanha. Gilroy argumenta que, enquanto outras abordagens nacionais e etnicamente fechadas restringem a identidade cultural, a diáspora africana se constrói como uma alternativa ao nacionalismo racial. Ao destacar que a identidade cultural negra não pode ser totalmente compreendida dentro das fronteiras de um único país, ele apresenta a diáspora como uma forma radical de identidade cultural que vai além dos binarismos étnicos e das estruturas fixas do Estado-nação. Para ele, as culturas negras expressam uma multiplicidade que desafia as definições limitantes impostas por ideologias nacionais, especialmente as britânicas. No entendimento de Gilroy, o debate sobre identidade negra está atrelado à própria modernidade e ao Estado-nação, ambos marcados pela “raciologia” – a ideia de “raça” que permeia as promessas de igualdade e liberdade modernas. Gilroy afirma que os códigos éticos e morais da modernidade foram corrompidos pela raciologia, cujos impulsos raciais contradizem as promessas universais da modernidade. Ele defende que, embora essas promessas não sejam descartáveis, precisam ser confrontadas com as críticas que emergem da experiência de racialização, e que uma crítica profunda à modernidade deve incluir a denúncia das suas contradições raciais. Gilroy afirma que a perspectiva dissidente dos intelectuais negros do Ocidente surge dessa ambiguidade – de estarem dentro, mas sem pertencimento total à modernidade. Esse estado de dupla consciência permite que esses intelectuais desafiem a modernidade a partir de um ponto de vista diferenciado, revelando as promessas não cumpridas de liberdade e igualdade. A “dupla consciência” representa o processo de tradução entre culturas e a capacidade crítica dos intelectuais negros de refletirem sobre as contradições modernas a partir de um lugar intermediário. A noção de Atlântico Negro, que emerge desse lugar de enunciação, explora como esses intelectuais, mesmo enraizados nas culturas ocidentais, possuem uma perspectiva única para criticar o mundo moderno. Para Gilroy, o Atlântico Negro é mais que um símbolo geográfico. Ele é um sistema de relações e trocas que conecta África, Europa e Américas, criando uma identidade negra que ultrapassa as fronteiras nacionais e desafia as concepções etnicamente absolutistas. A escravidão é um momento histórico chave, pois gerou trocas e transformações que moldaram as culturas negras no Caribe, África, Europa e Américas. Com os conceitos de crioulização e sincretismo, Gilroy mostra como as culturas políticas negras foram revitalizadas em diferentes contextos, revelando um sistema rizomático de identidades culturais que ultrapassa as limitações de um centro fixo ou de fronteiras rígidas. O Atlântico Negro, para Gilroy, é um espaço de identidade negra em fluxo contínuo, definido pela multiplicidade e pelas trocas laterais. A imagem do navio é central para Gilroy, representando o trânsito e a mobilidade das culturas negras e remetendo à “cultura de viagem” proposta por James Clifford. Ele aplica esse conceito para explorar as vidas de figuras como Richard Wright e W. E. B. Du Bois, cujas experiências no exílio evidenciam a condição transnacional e transcultural dos intelectuais negros. Para esses indivíduos, a viagem e o exílio representaram um rompimento com os laços limitantes de nacionalidade e etnia, gerando uma identidade em transformação que não se encaixa em categorias fixas de raça ou nacionalidade. A experiência de exílio, voluntária ou forçada, também suscitou em muitos intelectuais negros o desejo de transcender as barreiras da etnia e da identidade nacional. Para Gilroy, a especificidade cultural e política do Atlântico Negro pode ser entendida como uma forma de ultrapassar as estruturas do Estado-nação e as fronteiras étnicas, criando novas formas de identidade e organização política. A intenção de Gilroy com o conceito de Atlântico Negro é reconfigurar a crítica cultural e política negra, destacando o caráter transnacional e translocal dessa cultura em fluxo. No Atlântico Negro, as experiências culturais e políticas dos negros no Ocidente não se resumem a um contexto nacional específico. Em vez disso, são caracterizadas por uma rede complexa de intercâmbios culturais, como o garveyismo, pan-africanismo, movimento pelos direitos civis e a revolução haitiana, formando um sistema rizomático e transcultural. Ao explorar a ideia de “culturas de viagem”, Gilroy analisa como o trânsito de intelectuais negros pelo Atlântico permitiu a criação de uma identidade dissidente. Gilroy estuda como intelectuais como Richard Wright e W. E. B. Du Bois transcenderam sua condição afro-americana ou caribenha, tornando-se figuras cuja identidade não cabe em categorias fixas de nacionalidade e raça. Segundo Gilroy, essa experiência de exílio alterou radicalmente a relação desses intelectuais com sua terra natal e identidade. A condição transnacional e transcultural dos intelectuais negros é central para o entendimento do Atlântico Negro como um sistema cultural que desafia as fronteiras nacionais e cria novas possibilidades de análise. O Atlântico Negro representa uma tentativa de reenquadrar a crítica cultural negra e a política, buscando uma identidade que não seja limitada pela particularidade nacional ou pelo etnocentrismo.
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