Capoeira (Acre)
Composição da população não-branca do estado
População Total: 830.018 pessoas
População Parda: 66,25% da população
População Preta: 8,56% da população
População Quilombola: Não há
População Indígena: 31.694 pessoas
Fonte: IBGE 2022
Capoeira
A Capoeira é uma manifestação cultural-artística e esportiva criada por escravizados, negros e africanos em território brasileiro. Ela compreende elementos de música, luta, dança e brincadeira. Tal manifestação é uma das mais conhecidas manifestações brasileiras ao redor do globo, sendo considerado Patrimônio Imaterial da Humanidade pela UNESCO desde 2014. De forma recorrente, a Capoeira é associada às experiências do Sudeste e Bahia, todavia é possível encontrá-la em todos os estados do Brasil, inclusive em outros países. Hoje escolhemos falar da experiência específica no estado do Acre.
Povo Guerreiro
Olha aqui meu camarada
Preste atenção que eu vou te falar
É história do povo do Acre que agora vou contar
Essa é a história de um povo guerreiro
O Acre se tornou forte
E lutou para ser brasileiro
(refrão)
Foi conhecido por suas lindas seringueiras
De onde extraíam o látex
Matéria prima brasileira
Muitos nordestinos com promessa de riqueza
Vieram para o Acre
Conquistar a terra brasileira
E aqui chegando conheceram os indígenas
Panos e Aruaques
A base de outras etnias
Mas houve um tempo em que quiseram o Acre tomar
Nesse instante o Brasil com a Bolívia
Começou a guerrear
Mas a vitória veio com sangue a derramar
O seringueiro de soldado da borracha
Então passou a se chamar
Foi nas batalhas
Às margens dos Rios Acre e Abunã
Fizeram do povo do Acre pertencente a grande nação
Essa é a história de um povo guerreiro
O Acre se tornou forte
E lutou para ser brasileiro
(refrão)
Autoria: Contramestre Riquinho – Cledir de Araújo Amaral
O estado do Acre fora um dos últimos a serem anexados ao Brasil. Antes pertencente à Bolívia, somente no final do século XIX que imigrantes, sobretudo dos estados da região do Nordeste, passam a buscar uma vida melhor no território impulsionados pelo chamado Surto da Borracha (1877 – 1912). Ao mesmo tempo, inúmeros ex-escravizados, negros e imigrantes do Rio de Janeiro eram presos e levados à região do Acre como forma de punição dos considerados “problemas sociais” por participarem de revoltas e lutas sociais na cidade, como a Revolta da Vacina (1904) e Revolta da Chibata (1910). A chegada da capoeira no atual Acre é incerta, mas é provável que ela esteja associada aos fatos históricos citados e às culturas de matriz africana que as pessoas levaram com elas, antes mesmo da anexação do estado ao Brasil.
É a partir da década de 1970 que se tem mais registros sobre a Capoeira acreana. Nesse período, inicia-se a construção das pontes Cel. Sebastião Dantas e Juscelino Kubitschek na capital e uma nova onda de migração de trabalhadores negros, desta vez oriundos da Bahia, ocorre. Coincidência ou não, ambas pontes se localizam próximo à antiga Rua África, no bairro homônimo. Entre os imigrantes, estava Natálio Miranda dos Santos, conhecido como Baiano, aluno do Mestre Caiçara da Bahia. Ele fora um dos responsáveis por organizar a primeira roda de capoeira no estado. Outros capoeiristas também chegaram à capital neste período, como Mestre Antonio Satanás e Mestre Coringa, ambos alunos formados por Mestre Bimba, criador da Capoeira Regional. Nesse período, as rodas aconteciam na rua de forma esporádica.
No entanto, há uma mudança significativa quando Mestre Rodolfo chega à capital. Mestre Rodolfo foi formado por Mestre Suassuna, do grupo Cordão de Ouro e, mais tarde, funda o grupo Cativeiro em São Paulo. Mestre Rodolfo chega ao Acre com o sonho de muitos outros: mudar de vida. Ele era piloto e, por ser negro, não conseguia arrumar emprego na área da aviação. Assim, um de seus amigos o incentivou a ir para o estado devido a falta de pilotos na região. O Acre o acolhera, assim como o fez com vários outros que ali chegaram.
Mestre Rodolfo fora o responsável por criar a primeira escola de Capoeira e o primeiro batizado da capital. Além disso, ele passa a dar aulas no SESC. Sua chegada evidencia um novo momento da Capoeira do estado, que se consolida como uma prática cultural e esportiva importante não só em Rio Branco. Em outras palavras, houve o aprimoramento da Capoeira como prática esportiva, organização de treinos, uniformização e realização de apresentações e eventos, bem como o intercâmbio de capoeiristas, que colocaram o Acre na rota nacional da Capoeira.
Atualmente, a prática da Capoeira já é consolidada em todo o estado acreano, sendo ensinada em escolas, clubes e eventos. A Capoeira evidencia a importância das práticas culturais de matriz africana desde antes do antes fazer parte do Brasil, além disso retrata memórias coletivas de trabalhadores e imigrantes negros que influenciaram, e ainda influenciam, a constituição de nossa sociedade.
Recomendação
Assista o documentário “Capoeira no Acre- Relatos e memórias de roda” produzido pelo IPHAN: https://www.youtube.com/watch?v=80iAF9Uo8sY&pp=ygUOYWNyZSBjYXBvZWlyYSA%3D
Fonte
Repositório do IFAC: A ginga na terra do Aquiry: dimensões históricas, etnográficas e mapeamento da capoeira no Acre: https://repositorio.ifac.edu.br/jspui/handle/123456789/91