O Negro no Futebol
O futebol na contemporaneidade pode ser compreendido como um importante espaço de leitura das relações sociais, no qual hierarquias, formas de reconhecimento e conflitos são continuamente produzidos, tensionados e reconfigurados. O que se desenrola no interior do jogo, disputas por pertencimento, visibilidade e legitimidade, remete a processos que atravessam o cotidiano, permitindo interpretá-lo como um campo em que se condensam dinâmicas mais amplas da vida social. Sua difusão global, sobretudo a partir do final do século XIX, esteve vinculada a circuitos urbanos associados à expansão imperialista britânica, nos quais o futebol circulava como prática restrita a grupos economicamente privilegiados. Essa configuração instituiu critérios sociais e raciais que passaram a regular quem podia participar e sob quais condições (Giulianotti & Robertson, 2009).
A presença do negro no futebol constitui um eixo decisivo para compreender a formação histórica desse esporte e suas reconfigurações contemporâneas. Para além de um dado demográfico, ela demonstra um campo de disputas em que práticas culturais, hierarquias raciais e formas de ação política se entrelaçam. Nesse processo, sujeitos negros desempenham papel ativo na produção de estilos de jogo, na elaboração de sentidos sobre o esporte e na contestação de desigualdades.
No Brasil, a inserção de jogadores negros ocorreu em meio às tensões do período pós-abolição, marcado pela ausência de mecanismos efetivos de pertencimento social. A entrada nesse universo envolveu negociação, adaptação e enfrentamento. A adoção de códigos de respeitabilidade, expressos no controle da aparência, do comportamento e das formas de sociabilidade, assim como estratégias de atenuação ou ocultamento de traços racializados, evidenciam a instabilidade dessa trajetória (Mário Filho, 1947 [2010]; Vieira, 2017). Esses processos indicam que a participação do negro no futebol não se deu de forma espontânea, mas como resultado de estratégias construídas em condições adversas, por meio das quais o esporte se constituiu como um dos recursos de autoinscrição social. Isto é, a atuação de jogadores negros extrapola a mera presença, configurando-se como prática de produção de reconhecimento e de disputa por condições de existência, mobilidade e visibilidade, dentro e fora do campo esportivo. Trata-se, assim, de um esforço contínuo de inscrição histórica, realizado em níveis individuais e coletivos, por meio do qual esses sujeitos intervêm em narrativas que frequentemente os posicionam de forma subordinada (Du Bois, 2021).
A consolidação dessa presença produziu efeitos duradouros na forma de jogar. Atribuições recorrentes à criatividade, à improvisação e à expressividade corporal foram associadas a jogadores negros, compondo um repertório que atravessa a construção da identidade futebolística (Mário Filho, 2010). Embora frequentemente capturada por leituras essencializantes, essa construção pode ser interpretada com base na diáspora africana, como resultado de processos históricos de circulação cultural e hibridação (Hall, 2006). Em diálogo com Stuart Hall (2006; 2016) e Paul Gilroy (2012), o futebol pode ser entendido como espaço no qual experiências afrodiaspóricas se traduzem em formas corporais que deslocam padrões normativos e produzem novas gramáticas do jogo.
A diáspora africana, nesse contexto, não se reduz à dispersão, mas opera como princípio de construção de identificação. Como sugere Gilroy (2012), práticas culturais e formas vernaculares funcionam como espaços de produção de vínculos que atravessam fronteiras. O futebol se insere nesse registro ao combinar experiências locais e circulações transnacionais, possibilitando repertórios compartilhados de reconhecimento entre sujeitos negros em diferentes realidades.
Essa dinâmica se torna mais evidente quando se considera a relação entre identidade, experiência e horizonte de expectativa. A construção de identidades negras no futebol está para além do pertencimento local ou ao Estado-nação, embora estes permaneçam relevantes. Ela se projeta em um plano mais amplo, orientado por práticas, imaginações e formas de identificação construídas a partir de contextos nos quais esses sujeitos são sistematicamente excluídos dos projetos nacionais ou neles incorporados de forma subordinada.
Desse modo, o futebol se apresenta, para a população negra, como um espaço em que se entrecruzam memória, experiência e projeto. A relação entre agência criativa, diáspora africana e transnacionalismo negro permite compreender o negro no futebol como sujeito histórico que participa ativamente da produção e da transformação desse campo em escala global (Silvério, 2022a; 2022b).
A expansão do futebol ao longo do século XX o consolidou como um dos mercados mais globalizados da contemporaneidade. Ele pode ser considerado como uma mercadoria que vincula diferentes continentes, mobiliza fluxos financeiros expressivos e conecta diferentes esferas da vida social, da mídia ao entretenimento, da política à indústria cultural (Giulianotti & Robertson, 2009). A circulação de jogadores negros entre os diferentes continentes configura circuitos nos quais distintos regimes de racialização entram em contato (Silvério, 2022b). Nesses espaços, atletas negros e africanos ocupam posições centrais no espetáculo, ao mesmo tempo em que enfrentam manifestações recorrentes de racismo, como insultos em estádios e ataques em ambientes digitais.
As respostas a esses episódios variam entre manifestações individuais e ações coletivas que pressionam federações e organismos internacionais. Esse conjunto de práticas aponta para a formação de uma esfera de debate que ultrapassa fronteiras nacionais, na qual repertórios de denúncia circulam e se transformam. O transnacionalismo negro oferece uma chave interpretativa para compreender essas conexões como parte de processos mais amplos de solidariedade e disputa por reconhecimento (Silvério, 2022b). Nessa mesma direção, a noção de agência criativa negra destaca a capacidade de sujeitos negros de produzir intervenções que excedem a mera adaptação às estruturas existentes (Silvério, 2022a). Inseridas em um campo marcado por assimetrias, essas práticas introduzem deslocamentos que incidem sobre as formas de reconhecimento e valorização no esporte.
Apesar do protagonismo em campo, as estruturas de poder permanecem desiguais. A presença de treinadores negros em ligas de elite é reduzida em comparação à composição dos elencos. Na Europa, estimativas apontam que menos de 5% dos técnicos pertencem a grupos racializados (Ramos, 2025). No Brasil, a participação de treinadores negros nas Séries A e B segue minoritária e instável, cenário semelhante ao de outras ligas sul-americanas, onde a concentração de cargos de comando permanece associada a trajetórias e redes historicamente brancas (Observatório, 2024).
Casos como o de Vincent Kompany, técnico de um dos mais relevantes clubes do futebol europeu, demonstram tanto os obstáculos à consolidação de carreiras quanto a crescente problematização pública dessas desigualdades. Esse exemplo aponta para padrões mais amplos que delimitam o acesso de profissionais negros às instâncias decisórias.
A discrepância entre protagonismo esportivo e sub-representação institucional revela um descompasso persistente. Enquanto atletas negros são centrais para o desempenho e para a economia do futebol, sua presença diminui nos níveis mais altos de gestão. As transformações no plano do jogo não foram acompanhadas por mudanças equivalentes nas estruturas organizacionais.
Nos últimos anos, iniciativas de combate ao racismo têm sido implementadas por meio de campanhas, protocolos e sanções disciplinares (Fifa, 2024). Ainda assim, a recorrência de episódios discriminatórios indica limites dessas estratégias. Políticas institucionais coexistem com práticas que reiteram desigualdades, demonstrando um campo em disputa por hegemonia (Hall, 2013).
Nesse cenário, instâncias de regulação transnacional, como a FIFA, desempenham papel importante na definição de normas e agendas (Giulianotti; Robertson, 2009; Kassimeris, 2009; 2024). A incorporação da pauta racial por esses organismos responde tanto a pressões de jogadores negros que são alvos de racismo em campo quanto a interesses econômicos, além da sociedade civil. Em um mercado altamente lucrativo, o racismo aparece também como um fator que afeta a imagem e a circulação de capitais, deslocando seu enfrentamento para o campo da gestão institucional.
Essa dinâmica não elimina as tensões, mas as reconfigura. A presença do negro no futebol segue sendo um eixo decisivo para compreender essas disputas. Jogadores negros compõem a base do espetáculo e intervêm ativamente na produção do jogo, na elaboração de sentidos sobre o futebol e na contestação de desigualdades que atravessam o esporte.
Portanto, o negro no futebol não pode ser compreendido como presença circunstancial ou efeito colateral da expansão do esporte, mas como elemento constitutivo de suas formas de existência e transformação. A análise requer, assim, uma abordagem que considere processos históricos de exclusão, práticas de criação cultural e formas de ação política em múltiplas escalas. A agência criativa negra, nesse sentido, demonstra modos de intervenção que incidem sobre o jogo, suas narrativas e suas instituições, abrindo possibilidades de reconfiguração. A construção de pertencimentos e solidariedades, por sua vez, depende de condições históricas específicas e de práticas coletivas capazes de transformar experiências dispersas em referências compartilhadas, inscrevendo sujeitos negros como protagonistas na história social do futebol mundial.
REFERÊNCIAS
DU BOIS, W.E.B. As almas do povo negro. São Paulo: Veneta, 2021.
GILROY, Paul. O Atlântico negro. 2ª ed., Rio de Janeiro: Editora 34 Ltda, 2012.
GIULIANOTTI, Richard; ROBERTSON, Roland. Globalization & Football. London: SAGE, 2009.
HALL, Stuart. Identidade Cultural e Diáspora. In.: Revista Comunicação & Cultura, vol. 1, 2006, pp. 21-35.
HALL, Stuart. Cultura e representação. Rio de Janeiro: Ed. PUC-Rio: Apicuri, 2016.
HALL, Stuart. Raça, o significante flutuante. Z Cultural: Revista do Programa Avançado de Cultura Contemporânea, S.I., v. 8, n. 2, p. 1-7, jan. 2013.
INSIDE FIFA. Global Stand Against Racism. FIFA, Zurique (Suíça), 17 de maio de 2024. Disponível em: < https://inside.fifa.com/campaigns/no-discrimination/no-racism>. Acesso em: 21 abril 2026.
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MÁRIO FILHO. O negro no futebol brasileiro. 5ª ed. Rio de Janeiro: Mauad, 2010.
OBSERVATÓRIO. Menos de 8% dos treinadores são negros na elite do futebol brasileiro. Observatório, Porto Alegre, 20 de novembro de 2024. Disponível em: <https://observatorioracialfutebol.com.br/menos-de-8-dos-treinadores-sao-negros-na-elite-do-futebol-brasileiro/>. Acesso em: 22 abril 2026.
RAMOS, Larissa. Não vejo muitos’: a realidade dos treinadores negros no futebol europeu”. ge futebol internacional, Rio de Janeiro, 20 de novembro de 2025. Disponível em: <https://ge.globo.com/google/amp/futebol/futebol-internacional/noticia/2025/11/20/nao-vejo-muitos-a-realidade-dos-treinadores-negros-no-futebol-europeu.ghtml>. Acesso em: 22 abril 2026.
SILVÉRIO, Valter Roberto. Agência criativa negra: rejeições articuladas e reconfigurações do racismo. São Paulo: Intermeios, 2022a.
SILVÉRIO, Valter Roberto. Transnacionalismo negro, diáspora africana: uma nova imaginação sociológica. São Paulo: Intermeios, 2022b.
VIEIRA, José Jairo. As relações étnico-raciais e o futebol do Rio de Janeiro: Mitos, discriminação e mobilidade social. Rio de Janeiro: Mauad X, 2017.