Cinema negro

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Autor: Celso Luiz Prudente

O cinema negro brasileiro tem suas raízes no Cinema Novo, um movimento que se opôs ao modelo da chanchada e à influência do imperialismo americano no audiovisual nacional. A chanchada, primeira tendência sistemática do cinema brasileiro, era um reflexo da cinematografia industrial e, apesar de incorporar elementos da cultura afro-brasileira, tentava apagar a presença e o protagonismo negro. Essa invisibilização ocorria tanto pela ausência de personagens negros em papéis centrais quanto pela sua representação estereotipada, reduzindo-os a figuras cômicas ou subalternas.  

A cultura negra, no entanto, foi fundamental para a formação da identidade artística brasileira. Segundo Barbosa e Santos (1994), enquanto outros grupos buscavam apenas explorar as riquezas do país, o negro fez do Brasil seu lar, sendo o principal responsável pela produção cultural. Expressões como o teatro de revista e a música carnavalesca, que influenciaram a chanchada, têm origens na cultura africana. Além disso, a música e o teatro sempre estiveram atrelados à contribuição negra. A orquestra da Capela da Sé, por exemplo, era composta exclusivamente por músicos negros, sob a regência do maestro Padre José Maurício, considerado um dos maiores compositores brasileiros.  

O cinema nasceu na França, em 1895, com o filme *A saída da fábrica Lumière*, dos irmãos Lumière. Desde sua origem, apresentou uma preocupação com questões sociais, como a exploração dos trabalhadores e a condição feminina. No Brasil, essa sensibilidade com as minorias apareceu já nos primeiros anos da cinematografia nacional. Em 1908, o palhaço negro Benjamin de Oliveira realizou “Os Guaranis”, uma adaptação do romance “O Guarani” (1857), de José de Alencar. Ele levou para o cinema uma peça que já havia sido encenada no circo, trazendo o olhar de um artista negro sobre a figura indígena. Essa abordagem revela um aspecto importante da cinematografia brasileira: desde cedo, o cinema expressou a perspectiva de grupos marginalizados, ainda que, posteriormente, tenha tentado apagá-los de sua própria história.  

Na década de 1960, o Cinema Novo rompeu com a tradição chanchadista e passou a tratar de temas sociais e políticos, assumindo uma perspectiva marxista. Glauber Rocha, principal expoente do movimento, elegeu o negro e sua cultura como referências estéticas, estabelecendo uma narrativa na qual o negro simbolizava o proletariado e a pobreza, enquanto o branco representava a elite e o poder socioeconômico. Essa abordagem gerou identificação com a juventude negra, que encontrava no discurso de Rocha um alinhamento com suas próprias reivindicações.  

Um dos filmes mais emblemáticos desse período foi “Leão de Sete Cabeças” (1971), no qual Glauber Rocha propôs uma conexão entre as lutas anticoloniais na África e o socialismo revolucionário na América Latina. O filme traz uma construção narrativa única, deslocando temporalmente figuras históricas como Zumbi dos Palmares e Che Guevara, colocando-os lado a lado na luta contra o colonialismo em solo africano. Esse conceito reforça a ideia de que a libertação dos povos negros e latino-americanos estava interligada, uma mensagem que ressoou fortemente entre os jovens negros engajados na política da época.  

Na década de 1970, o Movimento Negro Unificado (MNU) emergiu como uma força de contestação ao regime militar e à estrutura racista da sociedade brasileira. Em 7 de julho de 1978, o MNU realizou um ato histórico nas escadarias do Teatro Municipal de São Paulo, denunciando a exclusão da juventude negra do ensino público de qualidade e do mercado de trabalho, além da perseguição policial sistemática contra a população negra. Esse evento marcou uma ruptura com a narrativa da democracia racial e trouxe visibilidade para a questão racial dentro da esquerda, que até então tratava a luta de classes como a única frente de batalha contra a opressão.  

O impacto desse movimento também se refletiu no cinema. Inspirados pelo pensamento de Glauber Rocha e impulsionados pelo ativismo negro, cineastas como Zózimo Bulbul, Ari Cândido e Celso Prudente decidiram buscar novas formas de representar a negritude no audiovisual. Muitos deles foram à África para suas primeiras experiências cinematográficas, criando uma ponte entre as lutas negras brasileiras e as narrativas africanas.  

Zózimo Bulbul, um dos pioneiros do cinema negro no Brasil, realizou “Alma no Olho” (1974), um curta-metragem experimental que explorava a identidade negra e a diáspora africana. Ari Cândido, por sua vez, dirigiu “Porque Eritréia” (1978), um filme sobre o processo de independência da Eritreia. Já Celso Prudente filmou “Axé, a Alma de um Povo” (1987) em Angola, abordando a cultura afro-brasileira e sua relação com as raízes africanas.  

Esses cineastas trouxeram uma nova perspectiva para o cinema nacional, colocando o negro no centro da narrativa, tanto na tela quanto nos bastidores, como roteiristas e diretores. O cinema negro brasileiro nasceu desse movimento de resistência, trazendo consigo a luta por visibilidade e a construção de uma estética própria, que valorizasse a história e a cultura afrodescendente.  

Bibliografia:

BARBOSA, Wilson do Nascimento e SANTOS, Joel Rufino. (1994). Atrás do muro da noite: dinâmica das culturas afro-brasileiras. Brasília: Biblioteca Palmares.