Africanidades na cultura (popular) brasileira

De Diaspedia


No § 1º do Art. 215 da Constituição Cidadã (1988), fica definido que: “O Estado protegerá as manifestações das culturas populares, indígenas e afro-brasileiras, e de outros grupos participantes do processo civilizatório nacional” (BRASIL, 1988). Mas, o que é cultura popular?

Para o pensador Stuart Hall (2010), cultura popular sempre tem como sua base as experiências, as memórias e as tradições das pessoas. Mais do que isso: “está em conexão com as esperanças e aspirações locais, tragédias e cenários locais, que são as práticas e experiências diárias do povo comum” (HALL, 2010, p. 290).

Já para Gilberto Gil, cultura é igual feijão com arroz: necessidade básica, tem que estar na mesa de todo mundo.

Mas, isso nem sempre foi assim. A cultura é o lugar onde nós, indivíduos e sociedades, criamos significados: o que é bom e ruim, o que é civilizado e “selvagem”, quais vidas merecem viver e morrer... e o que é cultura ou não. Devido aos séculos de colonização, tudo que era associado às pessoas negras/africanas era considerado ruim, mal, impróprio, do diabo, imoral. Todas essas classificações serviram como justificativa para discriminar as culturas dessas pessoas, como se elas fossem nocivas para a sociedade. Por isso, por exemplo, o samba e a capoeira eram proibidos, e o funk é criminalizado. Nunca tivemos acesso a tantos materiais sobre as culturas e populações negras e africanas como atualmente. Ainda assim, hoje ainda vemos a perpetuação dessas violências: terreiros de candomblé e umbanda sendo queimados, e o Brasil continua sendo o país que mais mata pessoas negras no mundo.

Nesse sentido, as culturas de matriz africana, comumente chamadas de cultura popular negra, tem um papel importante de contestação desses significados. É nela que, desde antes do fim da escravidão, as pessoas negras evidenciam a importância de África para a construção de nossa sociedade. É nela que histórias apagadas são recontadas e vividas no cotidiano. E é nela que as pessoas negras, mas não só, conseguem se reconectar com o passado e traçar novas rotas para o futuro. Em outras palavras, a cultura é palco no qual podemos experienciar o que nos une: uma forma de viver o mundo com respeito à equidade, em busca de justiça social e pela diversidade cultural.

Essa série é um convite para embarcarmos em uma viagem através de tempos, lugares, oralidades e conhecer pessoas que viveram e vivem diferentes manifestações das africanidades na cultura de cada estado do Brasil. Ela tem como objetivo evidenciar a África viva em nosso país. Para cada estado (unidade federativa), escolhemos uma manifestação ou artefato cultural, personalidade ou local que represente a presença duradoura das africanidades - ou seja, a positivação das experiências e individuais e coletivas das populações negras através da cultura que nos possibilitaram questionar e tensionar paradigmas e almejar novos mundos.

É importante ressaltar que cada cultura tem sua especificidade, mas também é possível encontrar as “mesmas” manifestações culturais em diferentes regiões: jongo, batuque, samba, capoeira são alguns dos exemplos de como elas são... populares. Mesmo que tenha sido escolhida apenas uma manifestação por estado, é importante ter isso em mente: nada é único e fixo no tempo e espaço.

Vamos lá?