Coletivos Estudantis Negros

De Diaspedia

Autora: Luana Ribeiro da Trindade

Nos dicionários de língua portuguesa, como Michaelis, Priberam, Aulete e outros, a palavra "coletivo" é definida como um adjetivo, que significa o que abrange muitas coisas ou pessoas; característico de um grupo; e que pertence a um povo, uma classe, etc. Como substantivo indica várias pessoas, coisas ou animais.

O que define um agrupamento como coletivo é o fato de ser formado por um grupo de pessoas que se juntam por um objetivo comum, seja por questões sociais, políticas, culturais, artísticas, e assim por diante. A forma de organização dos coletivos é muito variada, com características próprias, apresentando demandas múltiplas e dinâmicas, relacionadas ao contexto social e político. No caso dos coletivos estudantis, esses são formados por alunos envolvidos com sua realidade, seja na escola, universidade ou instituição educacional à qual estão ligados, com ações geralmente focadas na defesa e garantia dos direitos estudantis.

Dessa forma, os coletivos de estudantes negros podem ser definidos como uma forma de organização própria, formada por jovens que realizam sua ação política em torno da identidade negra, conectados a outras questões como classe, etnia, gênero, sexualidade, entre outras, criando pontos de diferenciação.

É um espaço coletivo diaspórico (real ou imaginário), ou seja, que ultrapassa as perspectivas locais, regionais ou nacionais sobre como a cultura é entendida. A metáfora do "atlântico negro", de Paul Gilroy (2012), é importante nesse debate, pois explica as estruturas internacionais que se desenvolvem e se conectam em um sistema de comunicação global formado por fluxos de pessoas, imagens e símbolos negros pelos mais diversos pontos, que são redefinidos conforme os contextos culturais locais.

O conceito de diáspora abre espaço para uma nova narrativa que nos forma enquanto indivíduos e grupo, permitindo a compreensão das novas identidades e o reconhecimento da diversidade dentro da unidade. A diáspora desafia a ideia de identidades fixas e imutáveis, sendo incompatível com o pensamento nacionalista e racialista.

Quanto à estrutura organizacional, os coletivos de estudantes negros podem ser entendidos como um espaço de diálogo, troca, reconexão com a ancestralidade, resistência, fortalecimento, afeto, acolhimento, (re)construção de identidade e produção de novas formas de expressão corporal e estética. Têm como princípios: a autonomia/independência – não se institucionalizam, sendo que alguns existem por um período curto de tempo e desaparecem depois; a horizontalidade – não há presidente, diretoria, coordenação, liderança ou chefia; e a participação – no encontro com o coletivo, a pessoa vai se descobrindo e sentindo-se confortável ou não para assumir uma tarefa.

As pessoas que fazem parte do coletivo buscam um espaço comum, dinâmico e flexível, que envolva várias pautas, sem divisões e com direito a auto-organização, permitindo novas experiências e práticas de ação. Nas universidades, essas características se destacam, por exemplo, em relação aos Núcleos de Estudos Afro-brasileiros (NEABs), criados nos anos 1980/1990, dedicados a pesquisas e projetos voltados para a população negra dentro e fora da universidade, e com os grupos de estudos, pesquisa e extensão que também tratam das questões raciais e temas relacionados à educação.

É consenso na literatura de autores como Gohn (2017), Perez; Souza (2017) e Maia (2013) que se identificar como coletivo é marcar uma diferença, especialmente com outras formas de organização, como partidos políticos, associações, Organizações Não Governamentais (ONGs), movimentos juvenis, movimentos estudantis (Centro Acadêmico - CA, Diretório Central de Estudantes - DCE e Associação de Pós-Graduandos - APG). Esses eram os únicos espaços de expressão e organização política de estudantes até então.

Nas universidades públicas estaduais e federais no Brasil, esses coletivos ganharam importância, principalmente, após a criação da Lei n.º 12.711 de 29 de agosto de 2012 (conhecida como Lei de cotas), que garante vagas para estudantes autodeclarados pretos, pardos, indígenas e oriundos da escola pública. Eles se inserem dentro das várias formas de organizações negras, como os movimentos sociais, organizações de base, manifestações culturais, entre outras. Alguns exemplos importantes são a Frente Negra Brasileira (FNB), o Teatro Experimental do Negro (TEN), o Movimento Negro Unificado (MNU) e, a partir da década de 1990, os cursinhos populares pré-vestibular – como o Instituto Cultural Beneficente Steve Biko (1992) e a EDUCAFRO (1998).

Muitas vezes, os estudantes negros, principalmente ao ingressarem na universidade, começam a sentir que não pertencem, que não encontram pessoas semelhantes e que o ambiente universitário ainda mantém práticas elitistas e atitudes racistas e eurocêntricas. Isso faz com que questionem o funcionamento da instituição, com o objetivo de mudar essa estrutura conservadora. Eles buscam formas de organização e resistência.

A tecnologia de comunicação facilita a organização desses coletivos, permitindo agregar mais membros, comunicar-se e articular com outros coletivos e organizações negras. Seja pelas redes sociais ou presencialmente, buscam melhorar as condições de acesso e permanência, lutar contra o racismo e discutir diferentes demandas e situações que afetam os estudantes negros.

Os coletivos de estudantes negros costumam adotar como identidade visual símbolos da história e cultura negra, como o punho cerrado, o mapa da África, estampas, cores e figuras que remetem ao continente africano, além de imagens de mulheres e/ou homens negros. Muitas vezes, usam também nomes de líderes ou figuras históricas da luta negra brasileira (ou afro-diaspórica), ou de outras organizações negras do passado.

Sobre o uso do termo "coletivo", temos, no contexto norte-americano, o exemplo do Combahee River Collective (Coletivo Rio Combahee), criado em 1974, que marcou o começo da formação autônoma do movimento feminista negro. As fundadoras, como Angela Davis, publicaram em 1977 o "Combahee River Collective Statement" (Declaração do Coletivo Rio Combahee), tornando-se uma referência importante na luta contra a opressão racial, sexual, heterossexual e de classe (Pereira; Gomes, 2019, p. 198). Também podemos citar os movimentos feministas franceses na década de 1960/1970, como os representados pelos escritos de Simone de Beauvoir. Outra referência pode ser encontrada nos movimentos culturais da França e do Brasil, na mesma época, quando algumas pessoas (artistas ou não) se organizavam para criar ações artísticas fora dos espaços culturais tradicionais, formando coletivos, mesmo sem usar o termo, para levar a arte não só como cultura, mas também como uma forma de discutir questões sociais e políticas da época.

No Brasil, o uso do termo "coletivo" acompanhou a criação do Nzinga – Coletivo de Mulheres Negras, em 1983, no Rio de Janeiro, fundado por Lélia Gonzalez. Foi por meio dessa organização que o termo "coletivo" foi usado pela primeira vez no Brasil e, a partir dali, passou a ser adotado pelas organizações femininas negras daquela época. Seguindo as estratégias dos movimentos feministas e negros, mas se diferenciando por ser uma ação coletiva menos institucionalizada e com maior horizontalidade na forma de organização, além de reunir demandas da classe econômica mais vulnerável, as mulheres negras brasileiras.

Resgatando as referências das organizações do passado, essa forma de organização política coletiva vai além das estratégias de resistência, trazendo também um movimento no campo político, cultural, estético e subjetivo, que expressa práticas e ações coletivas insurgentes.

Bibliografia:

GILROY, Paul. Atlântico negro: modernidade dupla consciência. São Paulo: Editora 34, Universidade Candido Mendes, Centro de Estudos Afro-Asiaticos, 2012 (2° edição).

GOHN, Maria da Glória Marcondes. Manifestações e protestos no Brasil: correntes e contracorrentes na atualidade. v. 59. São Paulo: Cortez, 2017 (Coleção questões da nossa época).

MAIA, Greta Leite. A juventude e os Coletivos: como se articulam novas formas de expressão política. Revista Eletrônica do Curso de Direito da UFSM, Santa Maria, vol. 8, n. 1, p. 58-73, 2013. Disponível em: https://periodicos.ufsm.br/revistadireito/ article/view/8630.

PEREZ, Olivia Cristina; SOUZA, Bruno Mello. Velhos, novos ou novíssimos movimentos sociais? As pautas e práticas dos coletivos. In: Anais do 41° Encontro anual da ANPOCS, GT 11 - Institucionalização e contestação nos movimentos sociais. Caxambu – MG, 2017.

PEREIRA, Stefania; GOMES, Letícia Simões. Tradução: Manifesto do Coletivo Combahee River. Plural, Revista do Programa de Pós-Graduação em Sociologia da USP, São Paulo, v. 26.1, p. 197-207, 2019. Disponível em: https://www.revistas.usp.br/plural/article/view/ 159864.