Movimento Rorameira (Roraima)

De Diaspedia
Mapa do Brasil com Roraima em destaque

Composição da População Não-Branca do Estado[editar | editar código-fonte]

População Total: 636.707 pessoas

População Parda: 57,25% da população

População Preta: 7,73% da população

População Quilombola: Não há pessoas

População Indígena: 97.668 pessoas

Fonte: IBGE 2022

Movimento Rorameira[editar | editar código-fonte]

A constituição de Roraima como estado da federação, em 1988, representa um marco recente na história político-administrativa do extremo norte do Brasil. Contudo, essa formalização não eclipsa o denso e complexo histórico de ocupação e disputas territoriais que antecederam e moldaram o antigo território federal. Sua localização estratégica na tríplice fronteira com a Venezuela e a Guiana suscitou, ao longo dos séculos, não apenas a demarcação conflituosa de limites, mas também inúmeras tentativas de colonização por potências e grupos diversos – historicamente mencionando-se ingleses, neozelandeses, espanhóis e italianos, por exemplo. Tais incursões, frequentemente pautadas por interesses extrativistas e geopolíticos, culminaram, por consequência direta ou indireta, em processos de violência e massacres que impactaram de forma desproporcional as populações originárias e as comunidades locais. Apesar de sua recente emancipação política, o território carrega, portanto, uma história rica, marcada pela sobreposição de narrativas e pelo encontro (muitas vezes forçado) de diversas culturas e povos. O foco desta análise, contudo, será direcionado à história recente e à gênese do Movimento Rorameira, considerando esse substrato histórico-geográfico como pano de fundo.

Em 1943, o presidente Getúlio Vargas cria cinco territórios nacionais com o intuito de desmembrar o Amazonas: Guaporé (atual Rondônia), Amapá, Ponta Porã (extinto), Iguassu (extinto) e o Território Rio Branco (atual Roraima). Com os novos territórios, criou-se a Divisão de Produção, Terra e Colonização (DPTC) que, como o nome sugere, tinha como intuito “desbravar” e colonizar a região conhecida pela densidade da floresta amazônica. Nesse mesmo período foram criadas as primeiras colônias agrícolas que fizeram crescer a migração para a região, sobretudo de maranhenses para quem foram prometidas terras, passagem, hospedagem, ferramentas e dinheiro mensal.

Já na década de 1960, o Território do Rio Branco passa a denominar-se Território de Roraima. Entre a década de 1960 e 1970, durante a ditadura cívico-militar (1964-1985), os militares ampliaram sua atuação no “desenvolvimento” na região. Mas, na verdade, a ditadura militar trouxe fome, miséria, doença e morte de milhares de indígenas Yanomami em Roraima, um grupo que até hoje sofre com a cicatriz aberta da colonização e da ditadura. Nesse período, terras indígenas foram tomadas para a ampliação da fronteira agrícola e exploração mineral e de energia.

Em 1980, ainda com a tentativa de exploração da região, fora descoberto que o estado possuía enorme quantitativo de ouro, o que intensificou mais o roubo das terras indígenas: entre 1987 e 1991, foram construídas oito pistas clandestinas no território Yanomami para facilitar o transporte do metal. O ouro também foi um atrativo para pessoas de diferentes regiões que buscavam melhorar de vida.

Todavia, assim como em todo o Brasil, os anos 1980 demarcaram a intensificação da luta contra a ditadura, bem como uma tentativa de se pensar que país que se almejava depois de tanto tempo de violência, boicote à cultura e morte. Sem sombra de dúvidas, a arte e, em especial, a música foi uma das ferramentas mais importantes de contestação e tentativa de se pensar o futuro da sociedade.

Em 1984, ocorre o 2º Festival de Música de Roraima e o artista, cantor e compositor Zeca Preto lança a música “Roraimeira” que ganha o segundo lugar na competição. No mês seguinte, ele, Eliakin Rufino e Neuber Uchôa se apresentam no Teatro Amazonas com o nome Trio Rorameira, demarcando o início de um movimento que já tinha a semente plantada no solo do estado.

A proposta era mostrar para a população local e de fora que o estado era mais que os buracos e barulhos causados pelo garimpo. Veja a letra a seguir:

Te achei na grande América do sul

Quero atos que me falem só de ti

E em tua forma bela e selvagem

Entre os dedos o teu barro o teu chão

E em tuas férteis terras enraizar

A semente do poeta Eliakin

Nos seus versos inerentes ao amor

Aves ruflam num arribe musical, musical

Os teus seios grandes serras

Grandes lagos são os teus olhos

Tua boca dourada, Tepequém, Suapi

Terra do Caracaranã, do caju, seriguela

Do buriti, do caxiri, Bem- Querer

Dos arraiais, do meu HI-FI

Da morena bonita do aroma de patchully

Da morena bonita do aroma de patchully

O teu importante rio chamado branco

Sem preconceito, de um negro ele aflui

És Alice neste país tropical

De um cruzeiro norteando as estrelas

Norte forte macuxi Roraimeira

Da coragem, raça, força garimpeira

Cunhantã roceira, tão faceira

Diamante ouro, amo-te poeira, poeira

Os teus seios grandes serras

Grandes lagos são os teus olhos

Tua boca dourada, Tepequém, Suapi

Terra do Caracaranã, do caju, seriguela

Do buriti, do caxiri, Bem- Querer

Dos arraiais, do meu HI-FI

Da morena bonita do aroma de patchully

Da morena bonita do aroma de patchully (Roraimeira – Zeca Preto)


A música, e o Trio, logo ficaram famosos na região por enaltecerem as belezas naturais, geográficas e culturais da região. Com as letras se mesclam ritmos africanos e afro-brasileiros como coco, maxixe, samba de roda, batuques e caribenhos como merengue e salsa, o que demonstra que o alicerce da região é justamente o encontro cultural de pessoas que lutam e lutaram para viver em Roraima. Em 2015, a música se torna Hino Cultural de Roraima pelo governo do estado.

A música e o show se tornaram nome de um movimento artístico que enaltece as diferentes culturas e a busca por identificações que são mescladas que fazem parte da região. Outro marco do movimento é o poema Cavalo Selvagem, de Eliakin Rufino:

eu sou cavalo selvagem

não sei o peso da sela

não tenho freio nos beiços

nem cabresto

nem marca de ferro quente

não tenho crina cortada

não sou bicho de curral

eu sou cavalo selvagem

meu pasto é o campo sem fim

para mim não existe cerca

sigo somente o capim

eu sou cavalo selvagem

selvagem é minha alegria

de ser livre noite e dia

selvagem é só apelido

meu nome é mesmo cavalo

cavalo solto no pasto

veloz carreira que faço

lavrado todo atravesso

caminhos no campo eu traço

eu corro livre galope

transformo galope em verso

eu sou cavalo selvagem

sou garanhão neste campo

eu sou rebelde alazão

sou personagem de lendas

sou conversa nas fazendas

sou filho livre do chão

eu sou cavalo selvagem

meu mundo é a imensidão (Cavalo Selvagem – Eliakin Rufino)


Segundo o artista, a letra acima refere-se aos cavalos que foram levados à região há 225 anos, em 1789, para as fazendas reais da coroa portuguesa. Com a Proclamação da República, as fazendas e os cavalos foram abandonados o que lhes garantiu uma vida livre na região. O poema pode ser lido através do processo de colonização e liberdade, de pessoas que, mesmo diante das violências, buscam a melhor forma de viverem suas vidas em liberdade e harmonia com o meio-ambiente.

Recomendação[editar | editar código-fonte]

Assista a reportagem "Música regional com o Trio Roraimeira" - Amazon Sat: https://www.youtube.com/watch?v=A-1TiEuHH9w

Fontes[editar | editar código-fonte]

Caldeirão de culturas e valorização regional: movimento Roraimeira completa 40 anos de história - G1: https://g1.globo.com/rr/roraima/noticia/2024/08/28/caldeirao-de-culturas-e-valorizacao-regional-movimento-roraimeira-completa-40-anos-de-historia.ghtml

Ditadura militar contribuiu para genocídio dos povos indígenas - EBC: https://agenciabrasil.ebc.com.br/direitos-humanos/noticia/2023-03/ditadura-militar-contribuiu-para-genocidio-dos-povos-indigenas

Caldeirão de culturas e valorização regional: Movimento Roraimeira completa 40 anos - Portal Amazonia: https://portalamazonia.com/cultura/movimento-roraimeira-40-anos/